Entre o Gesto e o Silêncio
Há um tempo em que o trabalho parece suspenso. Não por ausência de ideias, mas por uma densidade que não se deixa traduzir. Um tempo em que o gesto hesita, como se algo o impedisse de se lançar. É nesse intervalo que me pergunto: o que representaria uma evolução do meu trabalho agora?
Talvez um deslocamento — de linguagem, de suporte, de corpo. Talvez um gesto de ruptura, uma recusa ao que já foi dito. Talvez a entrada de um outro; colaborador, espectador, provocador. Ou talvez apenas o silêncio, como matéria-prima.
Mas há algo que obstaculiza. E não sei se vem de dentro ou de fora. Seria
uma postura pessoal frente ao trabalho? Um desejo de controle, uma exigência de
sentido, um medo da irrelevância? Ou seria algo externo, que passa desavisado,
o ruído institucional, a saturação de discursos, a ausência de escuta?
Penso também na possibilidade de uma condição prévia ao
trabalho. Um cansaço que antecede o gesto. Uma transição
interna que ainda não encontrou forma. Um novo paradigma que pede tempo para se
revelar.
Talvez o bloqueio não seja um obstáculo, mas um convite. Um chamado para
desacelerar, para errar, para escutar o que ainda não tem nome. Um tempo de
espera, onde o trabalho se faz subterrâneo.
Neste processo, não busco respostas definitivas. Apenas rastros, indícios,
pulsações. Porque às vezes, a arte precisa que eu desconfie da minha própria
clareza.

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